10 março 2014

Partidos, representação e os cara preta

Publicado em ZH, 06/11/2013
Os partidos políticos tem se revezado nas diferentes esferas e poderes desde a redemocratização do país. Neste período, são poucos os negros e indígenas que ocuparam cargos majoritários ou mesmo de primeiro escalão. Se por um lado mostra uma falta de representação da população não branca do país nas esferas de poder, por outro lado, aponta que os princípios partidários estão acima das questões identitárias. Desta forma, a proposta de uma política afirmativa que contemple essa lacuna de representação contradiz a organização do sistema político partidário hoje vigente. Surge aqui uma contradição.
O enfraquecimento programático dos partidos fortaleceu indivíduos, tradicionalmente identificados como caciques. No entanto, para que esses mantenham o poder, demandam bases fortes. Esse dialética levou a cooptação e esvaziamento das outras esferas de atuação política. A consequência disso é que os chamados movimentos sociais pautam sua discussão mais pelos programas partidários do que pelas demandas de quem representam. A cooptação fez com que as organizações sindicais, estudantis e identitárias, entre outras, perdessem poder de mobilização e diálogo, inviabilizado, muitas vezes, por divergências partidárias.
Os movimentos e partidos não atendem ou representam mais de forma satisfatória as demandas da sociedade, como visto nas manifestações de rua registradas nos últimos meses. Desta forma, uma maior presença de negros nos legislativos estaduais e federais, eleitos no atual sistema político partidário, não significa que as demandas de cidadania serão atendidas. Muitos dos eleitos se tornariam, citando a professora Petronilha Beatriz Gonçalves da Silva, da Universidade Federal de São Carlos, apenas uma cara preta no Congresso, pois defenderiam primeiramente as posições partidárias.
As políticas afirmativas objetivam promover o direito à cidadania plena para a população historicamente marginalizada. Conquistadas pelos movimentos sociais, romperam com a política pautada na universalidade iluminista, no mito da democracia racial e no branqueamento social. No entanto, as políticas têm sido utilizadas pelos governos como um fim em si mesmo e justificativa para falta de investimentos sociais e políticas cidadãs. Os caras pretas respaldariam essa omissão institucionalizada. Uma representação efetiva surgirá de investimentos em educação, saúde, saneamento, moradia, alimentação e da garantia de acesso a leis e serviços de qualidade. O Congresso deveria estar discutindo uma reforma política mais profunda. Outras medidas são inócuas no atual contexto político partidário.
http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2013/11/06/artigo-partidos-representacao-e-os-caras-pretas/?topo=13,1,1,,,13

Volta ao blog

Recomeço de onde parei. Achei muito interessante o apanhado feito pelo Jornal Grande Axé da querela sobre a sacralização de animais do qual o artigo anterior foi já uma resposta. Está em http://grandeaxe.com.br/component/content/article/661-ecologista-critica-sacrificio-de-animais-em-rituais-da-religiao

13 julho 2011

O longo século XX

“Quem é ateu e viu milagres como eu / sabe que os deuses sem Deus / Não cessam de brotar, nem cansam de esperar...” Os versos de Caetano Veloso serviram de trilha para a minissérie Tenda dos Milagres, baseada no livro de Jorge Amado e exibida pela Rede Globo em 1985. A história conta a luta de Pedro Arcanjo, entre os anos de 1913 e 1930, contra a perseguição promovida pelo Estado brasileiro às manifestações religiosas de matriz africana. Naqueles anos, como durante a escravidão, negava-se o direito de existir à cultura negra.
A resposta a essas violências se deu pelo sincretismo, com a ressignificação das memórias africanas em um novo contexto. O sagrado, guardado no corpo, na música e no culto à natureza, ocupou um importante papel, sendo a matriz das culturas negras no pós-aboliação. A defesa dessa tradição tornou-se uma das pautas dos movimentos negros, pois alteridade e respeito à diferença mantém-se no discurso, como na obra ambientada no início do século XX.
Na ZH dominical, o artigo assinado pela ecologista Letricia Piovesan posiciona-se contra a sacralização de animais nas celebrações da religião de matriz africana. O texto deu visibilidade a uma discussão silenciada. Passado um século do período retratado no livro, aumentam os ataques diretos e jurídicos contra os africanistas e seu direito à cidadania. No RS, as ocorrências chamaram a atenção da OAB e Ministério Público que realizaram audiências para discutir o assunto que fere um dos direitos fundamentais, garantido na Constituição. Por isso, os ritos enquadram-se dentro e não acima da lei.
Ritualisticamente, a sacralização reforça a energia vital e o laço com a natureza. Por essa relação, antropólogos da USP apontam os africanistas como os primeiros ecologistas. Teologicamente, grosso modo, a carne é consumida para fortalecer a relação. Por isso, somente animais habitualmente consumidos são sacralizados, excluindo dessa forma gatos e cachorros, como afirmado no texto. Argumentos como esse, inclusive, demonstram desconhecimento e pré-conceito no debate, confundindo religião afro com Magia Negra, essa última oriunda da Europa.
Quanto a exageros, como os “despachos pútridos” referidos no artigo, existe consenso sobre sua inadequação. No entanto, distorções acontecem de outras formas em todas as religiões, gerando indignação social, mas não pedidos públicos de proibição dos ritos. A história está cheia de exemplos de perseguições étnicas com resultados conhecidos. Outras visões de mundo precisam ser respeitadas, mesmo que incompreendidas. Nos dias de hoje, assim como os “deuses sem Deus”, os africanistas “não cansam de esperar” o dia em que poderão viver sua diferença com igualdade.

Deivison Campos
Jornalista, professor da Ulbra
Publicado em Zero Hora, 23 fev. 2011.

13 setembro 2009

Coisas que não se esquecem

Publicado em 28/06, em Zero Hora

A polêmica iniciada ainda durante a partida entre Grêmio e Cruzeiro, pela semifinal da Copa Libertadores da América, levou para as manchetes um tema recorrente: o racismo no futebol. Elicarlos diz que sim. Foi chamado de “macaco”. Maxi López nega e afirma ser contra qualquer tipo de discriminação. O caso está sendo investigado pela polícia e daí sairá sua solução. São preocupantes, no entanto, os argumentos utilizados pelos defensores de López. Afirmou-se que o atleta desconhecia o sentido da palavra, propuseram também a definição do dicionário para o xingamento em espanhol. No entanto, ninguém, além do atleta, se preocupou em provar que não usou a expressão.
Os lingüistas têm discutido há pelo menos um século se a palavra deve ser entendida pelo seu sentido escrito ou pelo uso. Considerando a escrita ser uma representação da fala, a segunda posição parece mais consistente. O uso da expressão “macaco” no futebol, de gestos como bananas atiradas nos gramados e coros onomatopéicos das arquibancadas estão ligados no Brasil e, igualmente, na Europa a manifestações racistas. Não existe justificativa para os atos, nem desconhecimento. Num rápido exercício de memória, pode-se citar o caso Grafite, Tinga, Jeovânio, Eto’o e as punições ao Lazio, da Itália, por ações de sua torcida. Por quê o uso no suposto caso teria um propósito diferente?
O racismo no futebol não é uma questão nova. Aqui em Porto Alegre, existiu a Liga dos Canelas Pretas num tempo em que os negros insistiam em praticar o esporte bretão. São conhecidas também as histórias dos jogadores mestiços que esticavam o cabelo para serem aceitos pelos torcedores. Eram outros tempos em que as certezas sociais estavam espelhadas em leis como o Decreto 7967, de 1945, que instituía que a imigração deveria ser orientada de acordo com a “necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população as características mais convenientes de sua ascendência européia”.
O problema do racismo hoje abandonou a esfera legal e deve ser analisado numa perspectiva mais ampla do que o futebol a fim de ser compreendido. A atual organização mundial foi construída a partir dos descobrimentos e consolidada na última grande onda imperialista do final do século XIX, quando a Europa espalhou suas populações pelo Ocidente e Oriente a fim de manter o controle político, econômico e étnico do mundo. Como a população branca mostrou-se numericamente insuficiente, fortaleceram-se as teorias de superioridade racial. O negro, escravizado como uma criatura sub-humana desde o século XIV, é mantido como inferior na “escala das raças”.
O término da Segunda Guerra Mundial representou o fim do projeto arianista de “solução final”, cujo decreto de autorização foi assinado há exatos 80 anos pelo regime nazista. O Holocausto horrorizou a humanidade e inibiu as manifestações públicas de preconceito de qualquer tipo, a não ser em regimes de exceção, como o Apartheid. As manifestações passaram à esfera privada e à cultura, regendo as relações entre pessoas e de algumas dessas com o meio social.
O geógrafo Milton Santos, em sua análise da globalização, alertou que os grandes temas da humanidade, entre eles a igualdade, não estavam resolvidos. A flexibilização das fronteiras levou a reabertura de velhas feridas. Conflitos, como os de Huanda e da Bósnia, e os movimentos neonazistas espalhados pelo o mundo estão ligados à questão da identidade e, em última análise, à antiga concepção de hierarquia entre os seres humanos.
O futebol, desde a integração dos negros, esteve colocado como um meio de promoção social e de integração dos povos. O esporte uniu o planeta, quando esse esteve divido em dois mundos, durante a Guerra Fria. A magia do rei fez parar, em 1969, um conflito no ex-Congo Belga. A história do esporte tem sido contada em preto e branco com astros como Pelé e Maradona, Eusébio e Beckenbauer, iguais em sua maestria nas quatro linhas. No entanto, episódios como o do ex-atacante da Lazio Paolo Di Canio, aquele que fez a saudação fascista, insistem em invadir o espetáculo da bola. Por isso, qualquer argumento que seja utilizado para justificar um ato racista, mesmo que ele não tenha ocorrido, é reforçar a idéia de diferentes imaginando-se desiguais, geralmente superiores. A igualdade precisa vencer este jogo para construirmos um mundo melhor.

Deivison Campos
Jornalista, mestre em História. Coordenador do curso de Jornalismo da Ulbra

10 março 2009

Muito além de “A Margem”

Esse saiu na Zero Hora, de Porto Alegre, do dia 7/3/2009

O filme A Margem, do diretor Ozualdo Candeias (1918-1988), lançado em 1967, foi um fracasso de público, mas tornou-se sucesso de crítica. Conta a história de quatro pessoas que moram à margem do Rio Tietê. As personagens caminham a esmo, mostrando a contradição entre sua existência no lixo e paisagens de rara beleza do rio. Na abertura, uma mulher numa canoa indica que as personagens vão morrer. Numa construção surrealista-documental, baseia-se em notícias de jornais. A Margem é considerado o filme precursor do movimento da Boca do Lixo em referência à região de São Paulo conhecida hoje como Cracolândia. Passadas mais de quatro décadas, o número de errantes multiplicou-se e está cada vez mais à margem; do Tietê, do Dilúvio e da sociedade. A violência temática e as transgressões estéticas e éticas, marca do cinema da Boca, tornaram-se regra em nossa sociedade. Também a afirmação do crítico Rubem Biáfora de que o filme refletia o “mais genuíno primitivismo” é atual. O primitivismo de nosso tempo, no entanto, está mais ligado à Cracolândia do que à Boca do Lixo. A agressão ao errante do Arroio Dilúvio foi pura expressão de barbárie. No entanto, a história já está contada e mesmo assim a sociedade parece não querer assistir a ela, a não ser quando lhe bate à porta, como neste caso. No entanto, como no cinema, os poucos que assistiram ficaram inertes. “Ninguém fez nada”, resumiu o PM Jackson Pioner, que evitou o assassinato do agredido. Consequências da relação conflituosa entre usuário e traficante e da brutalidade humana, as imagens logo serão esquecidas. Outro crime ou acidente ganhará atenção e repercussão e “ninguém ainda fará nada”. Atacam-se os personagens, mas a Margem nunca é lembrada. Nela, encontra-se a origem dos problemas. O aumento no consumo de drogas, as pessoas em situação de rua e de risco social e a violência permanente são consequência de questões que têm sido deixadas para trás e que “ninguém fez nada”. São como os sofás, fogões, carcaças de animais mortos e seres humanos que são descartados no Arroio Dilúvio. Quando chove, faz transbordar e um dia batem à nossa porta. O espancamento do morador de rua não foi um fato isolado. É resultado de um fenômeno social. A plateia, que prefere não ir ao cinema assistir A Margem, deve ficar atenta. Quando as personagens agem frente a um público mínimo e omisso, a barbárie sai fortalecida. Ainda é tempo de discutir se é esse o filme que será mantido em cartaz.

12 janeiro 2009

É sempre brincadeira

As recentes polêmicas envolvendo o príncipe Harry da Inglaterra, chamando colegas de exército de Paqui e cabeça de trapo, podem ser transpostas para nossa realidade. As expressões são consideradas pejorativas e, portanto, preconceituosas contra paquistaneses e árabes. A realeza divulgou uma nota dizendo que se tratava de uma brincadeira com um colega paquistanês e a ofensa aos muçulmanos seriam referentes a um talibã ou um soldado iraquiano. Contra os adversários pode... No que nos refere, a história parece bastante com a polêmica de algum tempo em que os gremistas chamavam colorados de macaco. Era brincadeira. Recentemente, várias pessoas ficaram feridas dentro da torcida gremistas por rivalidade que teve como “gota d’água” questões racistas. Descobriu-se inclusive um grupo ligado a ideologia nacional socialista – nazista. De brincadeira em brincadeira, os ânimos vão acirrando no que tange a questão identitaria. Devemos ter cuidado com as brincadeiras hoje, para que não virem crimes logo ali na frente. Alemanha, Ruanda, Balcãs... um dia vizinhos, no outro inimigos.

08 janeiro 2009

Hiper

Estava num hipermercado da zona sul de Porto Alegre quando iniciou uma confusão. Um menino de colo assustado, sua mãe e a avó todos negros protestavam contra a segurança do estabelecimento. Contaram que a criança havia batido com um pé no carrinho de uma outra senhora. A vó pediu desculpas e a mulher disse, entre fúria e riso, que a criança já estava aprendendo a fazer o que os negros fazem: “cagando na entrada ou na saída”. Fez outras várias referências racistas. As mulheres tentaram conte-la e chamar a segurança, mas os acusaram de ter retirado a agressora do prédio. Prometiam protestar na justiça. Como não testemunhei, conto aqui a história que se repete a cada dia em qualquer lugar. Pensemos sobre isso.

02 janeiro 2009

Oliveira Silveira

Gostaria de compartilhar uma rápida reflexão/homenagem neste momento em que o amigo Oliveira Silveira morreu. Tive a feliz oportunidade de partilhar de sua companhia de maneira intensa nos anos de 2004, 2005 e 2006, quando produzi minha dissertação de mestrado sobre a construção da idéia do 20 de novembro. Sempre atencioso, aguardava com aquele meio sorriso – tímido e, ao mesmo tempo, curioso.
Sua presença fará falta neste momento em que os “pensadores” cada vez mais tem ojeriza de militância. Tenho ouvido isso repetidamente na academia: “queremos pesquisadores, não militantes”. Quem faz a diferença, considerando o mundo que vivemos? A resposta foi nos dada pelo Oliveira com sua vida e obra.
Contou-me, certo dia, que sua experiência como militante começou inspirado por uma de suas professoras no Julinho, a de literatura. Ela lhe apresentou a literatura africana e todo o seu engajamento naquele momento histórico da descolonização. A partir das linhas da escrita da África, elaborou a história da sua vida. Ela se confunde com o movimento negro moderno, como ele costumava denominar a fase posterior ao fato político do 20 de novembro. Foi um de seus muitos arquitetos.
Sua história, no entanto, começo a ser rabiscada ainda na infância. Filho de mãe negra e pai uruguaio, recordava sua infância em Rosário do Sul: “Era uma comunidade remanescente de quilombo. Desse tipo, né?! Familiar.[...] Nós convivemos com a família negra, ali, sempre. [...] Isso aí, sem dúvida, ficou sendo um substrato.”. A idéia de comunitarismo foi seu projeto e herança , pois, como sempre enfatizava, Palmares foi “uma construção coletiva de negros que tiveram seus líderes, mas que tinham construído juntos tudo aquilo”. Que ele seja recebido nos braços de Oxalá e descanse no colo de Nanã.

08 dezembro 2008

O destino de um Black Panther

O MNU de São Paulo está engajado na mobilização de movimentos que lutam contra o racismo em todo o mundo em defesa da liberdade de Mumia Abu Jamal. Jornalista e escritor de oposição, ex-militante dos Panteras Negras, atualmente é integrante do Move, uma organização de ativistas negros da Filadélfia. O militante está preso desde 1981, condenado a morte. É acusado da morte de um policial. O movimento negro mundial, no entanto, relata que possui documentos, provando que o governo da Filadélfia persegue o jornalista, desde os seus 14 anos, sendo que com 15, Mumia ocupava o cargo de secretário na comissão de informações do redator do periódico dos Black Panthers. Também como radialista, sempre denunciou as injustiças e as práticas racistas do estado norte-americano. A procuradoria distrital da Filadélfia aguarda para o dia 19/12 a resposta do pedido feito ao supremo tribunal dos EUA que voltasse a impor a pena de morte a Mumia. Neste dia, será definido se o preso será executado ou mantido em prisão perpétua.

Contato com o Grupo KILOMBAGEM (kilombagem@yahoo.com.br), o MNU - Movimento Negro Unificado (mnu.juventudesp@gmail.com), ou o Movimento Anarcopunk de São Paulo (map_sp@yahoogrupos.com.br).

10 outubro 2008

O legado de Clóvis Moura

"O endeusamento dos heróis do passado, transformados em mitos ou símbolos da raça, como é o caso de Zumbi [se de um lado são justas, de outro], preenche a lacuna de grandes líderes negros no presente." Clóvis Moura, 1994,p.248

O texto serve de provocação para os movimentos negros que debatem-se, mas prescindem de pessoas realmente referenciais - excetuando-se o Abdias. No entanto, o objeto principal deste post refere-se a muitas pessoas da academia que relutam em utilizar a obra de Clóvis Moura pois o acusam de ser militante. Muitos deles, no entanto, trabalham agarrados a teoria proposta, por exemplo, pelo jamaicano Stuart Hall. Desconhecem que este último declara, como seu projeto teórico, ser um intelectual orgânico - em outras palavras, militante. Foi sempre o que pregou Gramschi e, inclusive, morreu por isso, além de muitos outros pensadores do socialismo e mesmo do capitalismo. Por que todos podem e se tornaram referências das Ciências Sociais, Humanas e Políticas mundiais e o Clóvis Moura não?

06 outubro 2008

Atualidade de um discurso 2

A necessidade de reorganizar e apropriar-se do passado para negociar a inclusão completa nas sociedades do chamado Atlântico Negro é recorrente no fim dos anos 60 início dos 70. Martin Luther King Jr., em seu histórico discurso proferido na marcha a Whashington, faz referência à história ao referir que “Cem anos depois [da Proclamação da Emancipação, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.” (KING JR., 1963). Também Bob Marley, cantor jamaicano que mundializou as idéias do rastafarismo e a leitura do discurso garveyrista de retorno a África, alertava que “Só metade da historia foi contada / E então agora que você enxergou a luz, ei!/ Lute pelos seus direitos /” (MARLEY, 1973).
A idéia da existência de um “mundo negro” chegou ao Brasil ainda na década de 30, também através do discurso garveyrista. A ideologia era defendida por um pequeno grupo do jornal O Clarim da Alvorada. A publicação era um dos meios de divulgação do movimento social negro do período. O discurso do grupo, no entanto, não possuía grande repercussão, pois a maioria das entidades negras adotava o branqueamento como modelo de integração social.
Reforçado na década de 50, por iniciativas como o Teatro Experimental do Negro, a idéia de pertencimento a uma tradição cultural diferente da oficial é o ponto inicial da ação do Grupo Palmares. A instituição do 20 de Novembro, como Dia do Negro, em oposição ao 13 de maio, sintetiza essa passagem de uma tradição oficial para uma tradição negra. A proposição surge como um fato novo dentro da luta política contra a hegemonia eurocêntrica da cultura oficial.

Garveyrismo

Marcus Mosiah Garvey nasceu em 1887 na Jamaica. Fundou a Associação para o Progresso Negro Universal, que contava com mais de um milhão de afiliados em 40 países em 1927. Defendia a criação de uma nação autônoma e independente na África, chegando a investir no desenvolvimento e colonização da Libéria. Lançou a Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo, enaltecedor da etnia negra, encorajando a autoconfiança e o patriotismo africano. As idéias de Garvey encontraram eco entre os líderes religiosos da Jamaica. A ele foi atribuída uma profecia que previa a coroação de um rei negro na África, que conduziria os negros do mundo inteiro a redenção. Os seguidores de Garvey na Jamaica reconheceram o libertador em Ras Tafari Tafari Makonnen, proclamado rei da Etiópia em 1930, adotando o nome de Haile Selassie I, dizendo-se legítimo herdeiro da antiga linhagem do Rei Salomão. Numa leitura livre da bíblia, seria o messias que libertaria os negros do mundo inteiro e os levaria de volta à terra de seus pais.

Uma frase

“Podemos encontrar prazer nesta história de resistência, mas, mais polemicamente, acho que deveríamos também estar preparados para lê-la política e filosoficamente nos momentos em que ela incorporou e manifestou críticas ao mundo tal como é.” Paul Gilroy. Atlântico Negro (2001, p.13)

12 setembro 2008

Direito de ser

Há algum tempo, tem-se discutido aqui no Rio Grande do Sul o direito constitucional da liberdade religiosa. Várias tentativas de lei e de medidas judiciais demonstram que a ingnorância - no sentido de desconhecimento - faz com que as pessoas desconfiem e confundam o que é religião de matriz afro. Por outro lado, há a perseguição implacável de outras religiões que se querem as únicas, ou verdadeiras. O que é verdade? Ou melhor, existe hegemonia do sagrado? Monopólio do divino? Não é um reflexão gratuita. Recebi por e-mail um convite para assinar o MANIFESTO DOS INTELECTUAIS, ARTISTAS, MILITANTES E RELIGIOSOS EM APOIO À CAMINHADA PELA LIBERDADE RELIGIOSA. Será uma marcha que ocorrerá em 21 de setembro no Rio de Janeiro em defesa desse direito constitucional. Se alguém quiser assinar basta clicar.

03 setembro 2008

Ler, escrever, falar e pensar

Hoje, encontrei meu amigo Carpinejar. Falamos sobre amenidades. Ele me contou de suas aulas no curso de Rock. Escrita criativa. Fiquei refletindo sobre isso e lembrei da maioria dos jovens que conheço. Lêem pouco, escrevem com dificuldade e falam da mesma maneira. Surge um tempo de novas necessidades que não o pensar? Ou falta incentivo para que façam? Estudos indicam que reformas nos sistemas de ensino demoram uma ou duas gerações para atingir os primeiros resultados - seja lá como isso é contado nos dias de hoje, considerando que as crianças nascem de olhos abertos. Teremos que esperar tudo isso para ver o impacto a reintrodução da sociologia e da filosofia no ensino fundamental e médio. Mesmo que no fim do túnel, há esperança.

02 setembro 2008

Uma questão

O título deste post é bastante indicativo. Atualmente, uma questão me provoca. A discussão é urgente e precisa ser travada por quem realmente está engajado no processo de transformar o lugar social e histórico do negro. Muitos pesquisadores generalistas, das ciências humanas e sociais, estão migrando para os estudos sobre o negro. Explico. Em sua maioria institucionalizados, dedicaram anos de suas vidas aos temas mais variados. Sempre os que estiveram na "moda". Nunca se preocuparam em pensar a situação do negro no Brasil. Hoje, o tema rende investimentos, recursos para pesquisa e projeção. A migração é notória. Todo mundo está a pesquisar a questão negra. Lembro que em 2004, quando entrei no mestrado para trabalhar com história contemporânea do negro, fiquei um ano sem orientador. Ninguém se dedicava ao tema, ou queria abraçá-lo. O pior de tudo, nesta corrida por onde está o dinheiro, é que os de sempre não abrem espaços para os que sempre (a redundância é provocativa) pesquisaram sobre o tema. Para os negros, isso não é moda. Continua sendo uma questão política.

Atualidade de um discurso

Leia com atenção o texto a seguir:
"o reconhecimento da tradição histórica dará rumo à busca de uma ideologia negra; - que reafirmando e reconquistando sua cultura ele será negro, e visto como tal, irá se impor como ser humano completo." A atualidade desta discussão impressiona. O texto, no entanto, foi escrito há 36 anos no primeiro grande manifesto público-midiático do Grupo Palmares, os instituidores do 20 de novembro. Devemos ouvir o que seus textos ainda têm a dizer. Ainda escreverei mais sobre isso.

30 agosto 2008

No branco do papel
jogo palavras desgarradas
em busca de alguém que as colham...

Escrevo o que eu quero

Há algum tempo, tenho pensado em criar um lugar para bate-papo com os amigos. Pois aqui está! Este é o meu recanto no espaço virtual. O título deste cantinho é uma referência a Frank Talk, Stephen Bantu Biko ou Steve Biko, o intelectual orgânico sul-africano que foi assassinado pelo regime apartheid. Ele soube combinar sua militância com uma importante reflexão sobre a existência, deixando, entre outras coisas, um legado sobre a urgência da "tomada de consciência". Falava da questão negra. O princípio, no entanto, pode ser aplicado a todas as causas sociais. Quando tomarmos consciência de que o ser deve estar a frente do ter e do devir, o mundo será melhor. Espero que ainda dê tempo...
Fiquem a vontade e sejam bem vindos.