13 setembro 2009

Coisas que não se esquecem

Publicado em 28/06, em Zero Hora

A polêmica iniciada ainda durante a partida entre Grêmio e Cruzeiro, pela semifinal da Copa Libertadores da América, levou para as manchetes um tema recorrente: o racismo no futebol. Elicarlos diz que sim. Foi chamado de “macaco”. Maxi López nega e afirma ser contra qualquer tipo de discriminação. O caso está sendo investigado pela polícia e daí sairá sua solução. São preocupantes, no entanto, os argumentos utilizados pelos defensores de López. Afirmou-se que o atleta desconhecia o sentido da palavra, propuseram também a definição do dicionário para o xingamento em espanhol. No entanto, ninguém, além do atleta, se preocupou em provar que não usou a expressão.
Os lingüistas têm discutido há pelo menos um século se a palavra deve ser entendida pelo seu sentido escrito ou pelo uso. Considerando a escrita ser uma representação da fala, a segunda posição parece mais consistente. O uso da expressão “macaco” no futebol, de gestos como bananas atiradas nos gramados e coros onomatopéicos das arquibancadas estão ligados no Brasil e, igualmente, na Europa a manifestações racistas. Não existe justificativa para os atos, nem desconhecimento. Num rápido exercício de memória, pode-se citar o caso Grafite, Tinga, Jeovânio, Eto’o e as punições ao Lazio, da Itália, por ações de sua torcida. Por quê o uso no suposto caso teria um propósito diferente?
O racismo no futebol não é uma questão nova. Aqui em Porto Alegre, existiu a Liga dos Canelas Pretas num tempo em que os negros insistiam em praticar o esporte bretão. São conhecidas também as histórias dos jogadores mestiços que esticavam o cabelo para serem aceitos pelos torcedores. Eram outros tempos em que as certezas sociais estavam espelhadas em leis como o Decreto 7967, de 1945, que instituía que a imigração deveria ser orientada de acordo com a “necessidade de preservar e desenvolver na composição étnica da população as características mais convenientes de sua ascendência européia”.
O problema do racismo hoje abandonou a esfera legal e deve ser analisado numa perspectiva mais ampla do que o futebol a fim de ser compreendido. A atual organização mundial foi construída a partir dos descobrimentos e consolidada na última grande onda imperialista do final do século XIX, quando a Europa espalhou suas populações pelo Ocidente e Oriente a fim de manter o controle político, econômico e étnico do mundo. Como a população branca mostrou-se numericamente insuficiente, fortaleceram-se as teorias de superioridade racial. O negro, escravizado como uma criatura sub-humana desde o século XIV, é mantido como inferior na “escala das raças”.
O término da Segunda Guerra Mundial representou o fim do projeto arianista de “solução final”, cujo decreto de autorização foi assinado há exatos 80 anos pelo regime nazista. O Holocausto horrorizou a humanidade e inibiu as manifestações públicas de preconceito de qualquer tipo, a não ser em regimes de exceção, como o Apartheid. As manifestações passaram à esfera privada e à cultura, regendo as relações entre pessoas e de algumas dessas com o meio social.
O geógrafo Milton Santos, em sua análise da globalização, alertou que os grandes temas da humanidade, entre eles a igualdade, não estavam resolvidos. A flexibilização das fronteiras levou a reabertura de velhas feridas. Conflitos, como os de Huanda e da Bósnia, e os movimentos neonazistas espalhados pelo o mundo estão ligados à questão da identidade e, em última análise, à antiga concepção de hierarquia entre os seres humanos.
O futebol, desde a integração dos negros, esteve colocado como um meio de promoção social e de integração dos povos. O esporte uniu o planeta, quando esse esteve divido em dois mundos, durante a Guerra Fria. A magia do rei fez parar, em 1969, um conflito no ex-Congo Belga. A história do esporte tem sido contada em preto e branco com astros como Pelé e Maradona, Eusébio e Beckenbauer, iguais em sua maestria nas quatro linhas. No entanto, episódios como o do ex-atacante da Lazio Paolo Di Canio, aquele que fez a saudação fascista, insistem em invadir o espetáculo da bola. Por isso, qualquer argumento que seja utilizado para justificar um ato racista, mesmo que ele não tenha ocorrido, é reforçar a idéia de diferentes imaginando-se desiguais, geralmente superiores. A igualdade precisa vencer este jogo para construirmos um mundo melhor.

Deivison Campos
Jornalista, mestre em História. Coordenador do curso de Jornalismo da Ulbra