10 março 2009

Muito além de “A Margem”

Esse saiu na Zero Hora, de Porto Alegre, do dia 7/3/2009

O filme A Margem, do diretor Ozualdo Candeias (1918-1988), lançado em 1967, foi um fracasso de público, mas tornou-se sucesso de crítica. Conta a história de quatro pessoas que moram à margem do Rio Tietê. As personagens caminham a esmo, mostrando a contradição entre sua existência no lixo e paisagens de rara beleza do rio. Na abertura, uma mulher numa canoa indica que as personagens vão morrer. Numa construção surrealista-documental, baseia-se em notícias de jornais. A Margem é considerado o filme precursor do movimento da Boca do Lixo em referência à região de São Paulo conhecida hoje como Cracolândia. Passadas mais de quatro décadas, o número de errantes multiplicou-se e está cada vez mais à margem; do Tietê, do Dilúvio e da sociedade. A violência temática e as transgressões estéticas e éticas, marca do cinema da Boca, tornaram-se regra em nossa sociedade. Também a afirmação do crítico Rubem Biáfora de que o filme refletia o “mais genuíno primitivismo” é atual. O primitivismo de nosso tempo, no entanto, está mais ligado à Cracolândia do que à Boca do Lixo. A agressão ao errante do Arroio Dilúvio foi pura expressão de barbárie. No entanto, a história já está contada e mesmo assim a sociedade parece não querer assistir a ela, a não ser quando lhe bate à porta, como neste caso. No entanto, como no cinema, os poucos que assistiram ficaram inertes. “Ninguém fez nada”, resumiu o PM Jackson Pioner, que evitou o assassinato do agredido. Consequências da relação conflituosa entre usuário e traficante e da brutalidade humana, as imagens logo serão esquecidas. Outro crime ou acidente ganhará atenção e repercussão e “ninguém ainda fará nada”. Atacam-se os personagens, mas a Margem nunca é lembrada. Nela, encontra-se a origem dos problemas. O aumento no consumo de drogas, as pessoas em situação de rua e de risco social e a violência permanente são consequência de questões que têm sido deixadas para trás e que “ninguém fez nada”. São como os sofás, fogões, carcaças de animais mortos e seres humanos que são descartados no Arroio Dilúvio. Quando chove, faz transbordar e um dia batem à nossa porta. O espancamento do morador de rua não foi um fato isolado. É resultado de um fenômeno social. A plateia, que prefere não ir ao cinema assistir A Margem, deve ficar atenta. Quando as personagens agem frente a um público mínimo e omisso, a barbárie sai fortalecida. Ainda é tempo de discutir se é esse o filme que será mantido em cartaz.