"O endeusamento dos heróis do passado, transformados em mitos ou símbolos da raça, como é o caso de Zumbi [se de um lado são justas, de outro], preenche a lacuna de grandes líderes negros no presente." Clóvis Moura, 1994,p.248
O texto serve de provocação para os movimentos negros que debatem-se, mas prescindem de pessoas realmente referenciais - excetuando-se o Abdias. No entanto, o objeto principal deste post refere-se a muitas pessoas da academia que relutam em utilizar a obra de Clóvis Moura pois o acusam de ser militante. Muitos deles, no entanto, trabalham agarrados a teoria proposta, por exemplo, pelo jamaicano Stuart Hall. Desconhecem que este último declara, como seu projeto teórico, ser um intelectual orgânico - em outras palavras, militante. Foi sempre o que pregou Gramschi e, inclusive, morreu por isso, além de muitos outros pensadores do socialismo e mesmo do capitalismo. Por que todos podem e se tornaram referências das Ciências Sociais, Humanas e Políticas mundiais e o Clóvis Moura não?
10 outubro 2008
06 outubro 2008
Atualidade de um discurso 2
A necessidade de reorganizar e apropriar-se do passado para negociar a inclusão completa nas sociedades do chamado Atlântico Negro é recorrente no fim dos anos 60 início dos 70. Martin Luther King Jr., em seu histórico discurso proferido na marcha a Whashington, faz referência à história ao referir que “Cem anos depois [da Proclamação da Emancipação, a vida do Negro ainda é tristemente inválida pelas algemas da segregação e as cadeias de discriminação.” (KING JR., 1963). Também Bob Marley, cantor jamaicano que mundializou as idéias do rastafarismo e a leitura do discurso garveyrista de retorno a África, alertava que “Só metade da historia foi contada / E então agora que você enxergou a luz, ei!/ Lute pelos seus direitos /” (MARLEY, 1973).
A idéia da existência de um “mundo negro” chegou ao Brasil ainda na década de 30, também através do discurso garveyrista. A ideologia era defendida por um pequeno grupo do jornal O Clarim da Alvorada. A publicação era um dos meios de divulgação do movimento social negro do período. O discurso do grupo, no entanto, não possuía grande repercussão, pois a maioria das entidades negras adotava o branqueamento como modelo de integração social.
Reforçado na década de 50, por iniciativas como o Teatro Experimental do Negro, a idéia de pertencimento a uma tradição cultural diferente da oficial é o ponto inicial da ação do Grupo Palmares. A instituição do 20 de Novembro, como Dia do Negro, em oposição ao 13 de maio, sintetiza essa passagem de uma tradição oficial para uma tradição negra. A proposição surge como um fato novo dentro da luta política contra a hegemonia eurocêntrica da cultura oficial.
A idéia da existência de um “mundo negro” chegou ao Brasil ainda na década de 30, também através do discurso garveyrista. A ideologia era defendida por um pequeno grupo do jornal O Clarim da Alvorada. A publicação era um dos meios de divulgação do movimento social negro do período. O discurso do grupo, no entanto, não possuía grande repercussão, pois a maioria das entidades negras adotava o branqueamento como modelo de integração social.
Reforçado na década de 50, por iniciativas como o Teatro Experimental do Negro, a idéia de pertencimento a uma tradição cultural diferente da oficial é o ponto inicial da ação do Grupo Palmares. A instituição do 20 de Novembro, como Dia do Negro, em oposição ao 13 de maio, sintetiza essa passagem de uma tradição oficial para uma tradição negra. A proposição surge como um fato novo dentro da luta política contra a hegemonia eurocêntrica da cultura oficial.
Garveyrismo
Marcus Mosiah Garvey nasceu em 1887 na Jamaica. Fundou a Associação para o Progresso Negro Universal, que contava com mais de um milhão de afiliados em 40 países em 1927. Defendia a criação de uma nação autônoma e independente na África, chegando a investir no desenvolvimento e colonização da Libéria. Lançou a Declaração dos Direitos dos Povos Negros do Mundo, enaltecedor da etnia negra, encorajando a autoconfiança e o patriotismo africano. As idéias de Garvey encontraram eco entre os líderes religiosos da Jamaica. A ele foi atribuída uma profecia que previa a coroação de um rei negro na África, que conduziria os negros do mundo inteiro a redenção. Os seguidores de Garvey na Jamaica reconheceram o libertador em Ras Tafari Tafari Makonnen, proclamado rei da Etiópia em 1930, adotando o nome de Haile Selassie I, dizendo-se legítimo herdeiro da antiga linhagem do Rei Salomão. Numa leitura livre da bíblia, seria o messias que libertaria os negros do mundo inteiro e os levaria de volta à terra de seus pais.
Uma frase
“Podemos encontrar prazer nesta história de resistência, mas, mais polemicamente, acho que deveríamos também estar preparados para lê-la política e filosoficamente nos momentos em que ela incorporou e manifestou críticas ao mundo tal como é.” Paul Gilroy. Atlântico Negro (2001, p.13)
Assinar:
Postagens (Atom)