10 março 2014

Partidos, representação e os cara preta

Publicado em ZH, 06/11/2013
Os partidos políticos tem se revezado nas diferentes esferas e poderes desde a redemocratização do país. Neste período, são poucos os negros e indígenas que ocuparam cargos majoritários ou mesmo de primeiro escalão. Se por um lado mostra uma falta de representação da população não branca do país nas esferas de poder, por outro lado, aponta que os princípios partidários estão acima das questões identitárias. Desta forma, a proposta de uma política afirmativa que contemple essa lacuna de representação contradiz a organização do sistema político partidário hoje vigente. Surge aqui uma contradição.
O enfraquecimento programático dos partidos fortaleceu indivíduos, tradicionalmente identificados como caciques. No entanto, para que esses mantenham o poder, demandam bases fortes. Esse dialética levou a cooptação e esvaziamento das outras esferas de atuação política. A consequência disso é que os chamados movimentos sociais pautam sua discussão mais pelos programas partidários do que pelas demandas de quem representam. A cooptação fez com que as organizações sindicais, estudantis e identitárias, entre outras, perdessem poder de mobilização e diálogo, inviabilizado, muitas vezes, por divergências partidárias.
Os movimentos e partidos não atendem ou representam mais de forma satisfatória as demandas da sociedade, como visto nas manifestações de rua registradas nos últimos meses. Desta forma, uma maior presença de negros nos legislativos estaduais e federais, eleitos no atual sistema político partidário, não significa que as demandas de cidadania serão atendidas. Muitos dos eleitos se tornariam, citando a professora Petronilha Beatriz Gonçalves da Silva, da Universidade Federal de São Carlos, apenas uma cara preta no Congresso, pois defenderiam primeiramente as posições partidárias.
As políticas afirmativas objetivam promover o direito à cidadania plena para a população historicamente marginalizada. Conquistadas pelos movimentos sociais, romperam com a política pautada na universalidade iluminista, no mito da democracia racial e no branqueamento social. No entanto, as políticas têm sido utilizadas pelos governos como um fim em si mesmo e justificativa para falta de investimentos sociais e políticas cidadãs. Os caras pretas respaldariam essa omissão institucionalizada. Uma representação efetiva surgirá de investimentos em educação, saúde, saneamento, moradia, alimentação e da garantia de acesso a leis e serviços de qualidade. O Congresso deveria estar discutindo uma reforma política mais profunda. Outras medidas são inócuas no atual contexto político partidário.
http://wp.clicrbs.com.br/opiniaozh/2013/11/06/artigo-partidos-representacao-e-os-caras-pretas/?topo=13,1,1,,,13

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Recomeço de onde parei. Achei muito interessante o apanhado feito pelo Jornal Grande Axé da querela sobre a sacralização de animais do qual o artigo anterior foi já uma resposta. Está em http://grandeaxe.com.br/component/content/article/661-ecologista-critica-sacrificio-de-animais-em-rituais-da-religiao