Os partidos políticos tem se revezado nas diferentes esferas
e poderes desde a redemocratização do país. Neste período, são poucos os negros
e indígenas que ocuparam cargos majoritários ou mesmo de primeiro escalão. Se
por um lado mostra uma falta de representação da população não branca do país
nas esferas de poder, por outro lado, aponta que os princípios partidários
estão acima das questões identitárias. Desta forma, a proposta de uma política
afirmativa que contemple essa lacuna de representação contradiz a organização
do sistema político partidário hoje vigente. Surge aqui uma contradição.
O enfraquecimento programático dos partidos fortaleceu indivíduos,
tradicionalmente identificados como caciques. No entanto, para que esses
mantenham o poder, demandam bases fortes. Esse dialética levou a cooptação e
esvaziamento das outras esferas de atuação política. A consequência disso é que
os chamados movimentos sociais pautam sua discussão mais pelos programas
partidários do que pelas demandas de quem representam. A cooptação fez com que
as organizações sindicais, estudantis e identitárias, entre outras, perdessem
poder de mobilização e diálogo, inviabilizado, muitas vezes, por divergências
partidárias. Os movimentos e partidos não atendem ou representam mais de forma satisfatória as demandas da sociedade, como visto nas manifestações de rua registradas nos últimos meses. Desta forma, uma maior presença de negros nos legislativos estaduais e federais, eleitos no atual sistema político partidário, não significa que as demandas de cidadania serão atendidas. Muitos dos eleitos se tornariam, citando a professora Petronilha Beatriz Gonçalves da Silva, da Universidade Federal de São Carlos, apenas uma cara preta no Congresso, pois defenderiam primeiramente as posições partidárias.
As políticas afirmativas objetivam promover o direito à cidadania plena para a população historicamente marginalizada. Conquistadas pelos movimentos sociais, romperam com a política pautada na universalidade iluminista, no mito da democracia racial e no branqueamento social. No entanto, as políticas têm sido utilizadas pelos governos como um fim em si mesmo e justificativa para falta de investimentos sociais e políticas cidadãs. Os caras pretas respaldariam essa omissão institucionalizada. Uma representação efetiva surgirá de investimentos em educação, saúde, saneamento, moradia, alimentação e da garantia de acesso a leis e serviços de qualidade. O Congresso deveria estar discutindo uma reforma política mais profunda. Outras medidas são inócuas no atual contexto político partidário.
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