13 julho 2011

O longo século XX

“Quem é ateu e viu milagres como eu / sabe que os deuses sem Deus / Não cessam de brotar, nem cansam de esperar...” Os versos de Caetano Veloso serviram de trilha para a minissérie Tenda dos Milagres, baseada no livro de Jorge Amado e exibida pela Rede Globo em 1985. A história conta a luta de Pedro Arcanjo, entre os anos de 1913 e 1930, contra a perseguição promovida pelo Estado brasileiro às manifestações religiosas de matriz africana. Naqueles anos, como durante a escravidão, negava-se o direito de existir à cultura negra.
A resposta a essas violências se deu pelo sincretismo, com a ressignificação das memórias africanas em um novo contexto. O sagrado, guardado no corpo, na música e no culto à natureza, ocupou um importante papel, sendo a matriz das culturas negras no pós-aboliação. A defesa dessa tradição tornou-se uma das pautas dos movimentos negros, pois alteridade e respeito à diferença mantém-se no discurso, como na obra ambientada no início do século XX.
Na ZH dominical, o artigo assinado pela ecologista Letricia Piovesan posiciona-se contra a sacralização de animais nas celebrações da religião de matriz africana. O texto deu visibilidade a uma discussão silenciada. Passado um século do período retratado no livro, aumentam os ataques diretos e jurídicos contra os africanistas e seu direito à cidadania. No RS, as ocorrências chamaram a atenção da OAB e Ministério Público que realizaram audiências para discutir o assunto que fere um dos direitos fundamentais, garantido na Constituição. Por isso, os ritos enquadram-se dentro e não acima da lei.
Ritualisticamente, a sacralização reforça a energia vital e o laço com a natureza. Por essa relação, antropólogos da USP apontam os africanistas como os primeiros ecologistas. Teologicamente, grosso modo, a carne é consumida para fortalecer a relação. Por isso, somente animais habitualmente consumidos são sacralizados, excluindo dessa forma gatos e cachorros, como afirmado no texto. Argumentos como esse, inclusive, demonstram desconhecimento e pré-conceito no debate, confundindo religião afro com Magia Negra, essa última oriunda da Europa.
Quanto a exageros, como os “despachos pútridos” referidos no artigo, existe consenso sobre sua inadequação. No entanto, distorções acontecem de outras formas em todas as religiões, gerando indignação social, mas não pedidos públicos de proibição dos ritos. A história está cheia de exemplos de perseguições étnicas com resultados conhecidos. Outras visões de mundo precisam ser respeitadas, mesmo que incompreendidas. Nos dias de hoje, assim como os “deuses sem Deus”, os africanistas “não cansam de esperar” o dia em que poderão viver sua diferença com igualdade.

Deivison Campos
Jornalista, professor da Ulbra
Publicado em Zero Hora, 23 fev. 2011.