12 janeiro 2009

É sempre brincadeira

As recentes polêmicas envolvendo o príncipe Harry da Inglaterra, chamando colegas de exército de Paqui e cabeça de trapo, podem ser transpostas para nossa realidade. As expressões são consideradas pejorativas e, portanto, preconceituosas contra paquistaneses e árabes. A realeza divulgou uma nota dizendo que se tratava de uma brincadeira com um colega paquistanês e a ofensa aos muçulmanos seriam referentes a um talibã ou um soldado iraquiano. Contra os adversários pode... No que nos refere, a história parece bastante com a polêmica de algum tempo em que os gremistas chamavam colorados de macaco. Era brincadeira. Recentemente, várias pessoas ficaram feridas dentro da torcida gremistas por rivalidade que teve como “gota d’água” questões racistas. Descobriu-se inclusive um grupo ligado a ideologia nacional socialista – nazista. De brincadeira em brincadeira, os ânimos vão acirrando no que tange a questão identitaria. Devemos ter cuidado com as brincadeiras hoje, para que não virem crimes logo ali na frente. Alemanha, Ruanda, Balcãs... um dia vizinhos, no outro inimigos.

08 janeiro 2009

Hiper

Estava num hipermercado da zona sul de Porto Alegre quando iniciou uma confusão. Um menino de colo assustado, sua mãe e a avó todos negros protestavam contra a segurança do estabelecimento. Contaram que a criança havia batido com um pé no carrinho de uma outra senhora. A vó pediu desculpas e a mulher disse, entre fúria e riso, que a criança já estava aprendendo a fazer o que os negros fazem: “cagando na entrada ou na saída”. Fez outras várias referências racistas. As mulheres tentaram conte-la e chamar a segurança, mas os acusaram de ter retirado a agressora do prédio. Prometiam protestar na justiça. Como não testemunhei, conto aqui a história que se repete a cada dia em qualquer lugar. Pensemos sobre isso.

02 janeiro 2009

Oliveira Silveira

Gostaria de compartilhar uma rápida reflexão/homenagem neste momento em que o amigo Oliveira Silveira morreu. Tive a feliz oportunidade de partilhar de sua companhia de maneira intensa nos anos de 2004, 2005 e 2006, quando produzi minha dissertação de mestrado sobre a construção da idéia do 20 de novembro. Sempre atencioso, aguardava com aquele meio sorriso – tímido e, ao mesmo tempo, curioso.
Sua presença fará falta neste momento em que os “pensadores” cada vez mais tem ojeriza de militância. Tenho ouvido isso repetidamente na academia: “queremos pesquisadores, não militantes”. Quem faz a diferença, considerando o mundo que vivemos? A resposta foi nos dada pelo Oliveira com sua vida e obra.
Contou-me, certo dia, que sua experiência como militante começou inspirado por uma de suas professoras no Julinho, a de literatura. Ela lhe apresentou a literatura africana e todo o seu engajamento naquele momento histórico da descolonização. A partir das linhas da escrita da África, elaborou a história da sua vida. Ela se confunde com o movimento negro moderno, como ele costumava denominar a fase posterior ao fato político do 20 de novembro. Foi um de seus muitos arquitetos.
Sua história, no entanto, começo a ser rabiscada ainda na infância. Filho de mãe negra e pai uruguaio, recordava sua infância em Rosário do Sul: “Era uma comunidade remanescente de quilombo. Desse tipo, né?! Familiar.[...] Nós convivemos com a família negra, ali, sempre. [...] Isso aí, sem dúvida, ficou sendo um substrato.”. A idéia de comunitarismo foi seu projeto e herança , pois, como sempre enfatizava, Palmares foi “uma construção coletiva de negros que tiveram seus líderes, mas que tinham construído juntos tudo aquilo”. Que ele seja recebido nos braços de Oxalá e descanse no colo de Nanã.